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"A POLÍTICA OFICIAL PARA A LITERATURA É MERCANTILISTA E CORPORATIVA" - Entreolhos com Cláudia Brino

Escritora e editora independente, Cláudia Brino (foto ao lado) faz um trabalho de muitas descobertas através de sua Editora Costelas Felinas, que já editou muitos milhares de títulos entre prosa e verso, de autores de todo o Brasil. Seu trabalho artesanal é de um capricho e uma correção impecáveis, que a fazem acumular clientes, amigos e admiradores. Ela ama o que faz. Isso é notório em suas postagens em rede social e na frequência com que lança movimentos como concursos literários, nos quais oferece edições como prêmios. Cláudia Brino é a nossa entreolhada nesta edição.

E – Cláudia Brino; centenas, talvez milhares de pessoas que não o fariam de outra forma vêm realizando o sonho de tirar das gavetas os seus escritos e transformá-los em livros impressos. Tudo graças à chance que você oferece, da publicação de quantos exemplares o autor quiser. Pode usar licença poética para responder, caso queira: o que isso significa para você?

R: Rapaz é uma emoção inestimável, principalmente quando podemos ver a reação de alguns autores recebendo o livro modelo. Tendo em mãos, pela primeira vez na vida, algo seu impresso e em formato de livro. Nestes dias uma amiga e também escritora, Vera Tezza, disse para nós, em rede social, e faço dela nossas palavras: Realizar sonhos é eternizar-se.

E – Você tem o registro de quantas pessoas já editaram livros pela sua Editora Costelas Felinas, e de quantos foram ao todo, os exemplares impressos?

R: Até agora editamos 329 títulos, entre livros solos e antologias, num total de 20.600 exemplares. Já há alguns anos estamos editando e lançando um livro novo por semana, a maioria em cidades que não contam nem com livrarias.

E – O que é a Editora Costelas Felinas? E qual é a filosofia da editora, visto que não se trata de uma atividade econômica, neste caso, das mais rentáveis? Ou estamos enganados?

R: A Costelas Felinas é uma editora totalmente artesanal e informal. Não somos empresa e nossa filosofia é servir de plataforma intermediária para aqueles que se movimentam neste imenso universo literário independente. Qualquer pessoa pode enviar sua obra por e-mail e receber em casa um livro gratuito para análise e correção. A partir daí pede somente o que necessitar de cada vez.

E – Vocês contam (não precisam dizer de que forma) com alguma facilidade de aquisição de papel, tinta, patrocínio etc.? Em que condições é feito esse trabalho? Não há nenhum problema se você disser nome de patrocinador.

R: Não temos nenhum tipo de facilidade. Tinta, papel e os outros itens de encadernação são comprados no varejo. O trabalho é todo feito à mão e utilizamos impressora doméstica, bom-humor e criatividade.

E – Mesmo oferecendo uma oportunidade como essa a tantos talentos da literatura, você enfrenta casos de intolerância quando algo não ocorre exatamente como o esperado? Em casos de prazo, por exemplo, entre outros itens?

R: O caso mais intolerante que apareceu foi o de uma pessoa que organizava antologias e queria a todo custo passar a frente de nossa fila de trabalho. Foi um bom período de discussão até a pessoa entender que para nós o que é válido é o respeito e que todos deveriam aguardar sua vez, não importando quem seja. Perdemos um cliente? Sim... rsss mas, ganhamos tranquilidade. Agora, em caso de prazo, o assunto chega a ser engraçado, porque tem gente que primeiro marca a data do lançamento, para depois mandar o trabalho para editarmos.

E – Uma curiosidade: você edita mais trabalhos de escritoras, escritores, ou essa ordem é variável?

R: Em nossa estante felina há um empate: as mulheres estão ganhando na prateleira da poesia e os homens na prateleira da prosa, isso em livro solo. Em organização de antologias, as mulheres estão na frente, bem na frente...

E – Fale um pouco de seus concursos: como funcionam? Quais são os critérios de avaliação, e quem são geralmente os avaliadores?

R: Os concursos são realizados de duas maneiras: pela própria Costelas Felinas (Prêmio Miau, Baseado na Estrada - 50 anos do Movimento Hippie, Cardápio Poético, Prêmio Narciso de Andrade, entre outros) e os que ocorrem em parceria com o Clube de Poetas do Litoral (CPL), do qual sou fundadora e coordenadora (Trajes Poéticos, CinePoesia, Desafio Literário...)
Os jurados da Costelas Felinas, são professores de literatura. Os jurados do Clube de Poetas do Litoral são os próprios integrantes do grupo.

E – Os concursos são patrocinados ou vocês bancam tudo? Mais uma vez não tem problema se você disser nome de patrocinador.

R: Todos os nossos concursos e eventos são bancados pelo nosso idealismo.

E – Defina para nós o apoio da iniciativa privada, do poder público e outras fontes, a trabalhos como o seu, e no seu caso, especificamente.

R: Olha, nós, especificamente, trabalhamos para provar que se pode fazer um trabalho literário totalmente independente e liberto da dicotomia poder público-iniciativa privada. O nosso trabalho é totalmente underground, ou seja, nos movimentamos à margem do Grande Mercado, portanto, todos os custos são bancados com recursos próprios, pois é, justamente, esta a nossa proposta: como movimentar o nome de forma alternativa, sem incentivo algum, longe dos guetos elitistas e da massificação segmentada.
 
E – Como você vê nos dias atuais, a política geral de incentivos oficiais à literatura? Você consegue notar essa política?

R: Toda política oficial para a literatura é somente mercantilista e corporativa. Não temos atividade empresarial e não atuamos em gabinetes, portanto, o que vemos é passarem os anos e a luta continuar a mesma.

E – Isso já não ocorre ou você continua se surpreendendo com talentos que descobre a cada “fornada” literária?

R: Nosso campo de ação é muito amplo, por isso nos oferece um leque abrangente da literatura contemporânea e a cada “fornada” a surpresa se renova.

E – O que é para você a literatura? O que ela representa em sua vida?

R As duas perguntas tem a mesma resposta: prazer.

E – Voltando aos concursos literários: o nome do concurso deste ano tem a ver com o gato preto ou a gata que vemos em suas postagens? É uma homenagem a ela? Fale a respeito.

R: Rsssss.... não diria que foi em homenagem, na verdade foi um estalo que deu na ideia, mas como a gatinha Noia passa muito tempo com a gente entre os livros, isso deve ter nos influenciado de alguma maneira.

E – Tem em mente o número de concorrentes? E qual foi a modalidade mais inscrita? Prosa ou verso?

R: Ainda não tivemos tempo para contar, mas acreditamos ter um pouco mais de 300 participantes. Até agora entregamos mais de 160 livros e a maioria inscrita foi POESIA.

E – Considerando sua lida diária com talentos da literatura, você diria que o Brasil está melhor, pior ou como sempre, no que tange o fazer literário tanto em qualidade quanto em quantidade? Por quê?

R: Nos últimos anos o mercado editorial cresceu muito com a chegada de grandes editoras estrangeiras monopolizando segmentos literários e isso contribuiu para a expansão do abismo entre os escritores regionais e as editoras nos grandes centros. A produção alternativa continua em alta, mas sufocada e restrita a eventos literários independentes.

E – Se puder e quiser, narre alguma curiosidade – ou mais de uma – que tenha marcado sua trajetória como editora.

R: O que marca a gente e sempre marcará nesta trajetória é a amizade que fazemos com os autores e a possibilidade de poder conhecer tantas ideias e ajudar a deixar isso registrado. Em segundo plano ficam os prêmios e menções honrosas que alguns livros editados pela Costelas Felinas receberam e também a edição de livros publicados para o exterior.

E – Sabe-se que você é também autora, e das boas. De prosa e verso. Qual é a sua modalidade literária preferida, como escritora? E por quê?

R: Minha modalidade é poesia. Por quê? Ela colou em mim.

E – Quantos livros seus, você já editou? Se puder enumere-os e classifique.

R: 16 livros solos. Poesia: Zona 2000, Mosaico da Insônia (livro em 7 volumes), Safra Velha (indicado ao Prêmio Nobel de Literatura/2018 pelo jornal Interna-tional Poetry News, da Itália), Momentos, Palavra, Chorando Reticências, Vozes, Almas com Fome, Pérola Verde, Objetos, Versos e Encaixe (estes três últimos em parceria com Vieira Vivo). Prosa: O lado Vertical da Cruz, Frags vol. 1 e 2, Fronteira, Amor Mofado.

E – Poetize com palavras, o prazer que você tem em dar notoriedade a tantos talentos.

R: Na verdade as letras dão destaque a todos que por elas são cativados e as afagam com vivência e sabedoria, porque somente através da palavra podemos deixar registrado que um dia passamos por aqui.

E – Deixamos de perguntar algo sobre o que você gostaria de falar? Fique à vontade.

R: Nenhuma. Tudo ótimo, tudo pertinente.

E – Dê os seus endereços comerciais e fale sobre como contatá-la e contratá-la para edições de livros.

R: Nossos contatos são: e-mail: cacbvv@gmail.com / celular: (13) 98139-1967. Como enviar a obra? Está explicado em nosso blog: http://artesanallivro.blogspot.com.br .

E – Deixe alguma mensagem, a seu critério, para os nossos leitores, os autores de sua editora e os concorrentes do prêmio Miau.

R: Como já disse Vítor Ramil: não estamos à margem, estamos no centro de uma outra margem.

E – Muito obrigados. Foi uma honra imensa entreolhá-la.


R: Cá adoramos por demais este convite. Só temos a agradecer por nos permitir fazer parte da ENTREOLHOS (outro ótimo meio de difusão cultural) e agradecer ao amigo e autor Demétrio Sena por nos apresentar a si.

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